Adoção na Passarela sob a ótima do Nexo

Por Clara Xisto


O Nexo é um jornal digital que tem como objetivo principal “trazer contexto às notícias e ampliar o acesso a dados estatísticos. Lançado em novembro de 2015, como iniciativa independente, pelos cofundadores Paula Miraglia, Renata Rizzi e Conrado Corsalette, conta com editorias explicativas, como é o caso de “Explicado” e “Gráfico”, além de uma gama de podcasts como “Durma com essa” e “Politiquês”.


Nexo é um Jornal Digital

Em sua editoria “Expresso”, publicou no dia 22 de maio de 2019 uma matéria que expunha críticas ao evento “Adoção Passarela”, que aconteceu em Cuiabá-MT, e consistia em um desfile em que crianças, de 4 a 17 anos desfilavam, enquanto possíveis adotantes assistiam, e possivelmente escolheriam seus filhos. O evento foi realizado pela Ampara (Associação Matogrossense de Pesquisa e Apoio à Adoção) e em parceria com a seção estadual da Comissão de Infância e Juventude da Ordem dos Advogados do Brasil. O Nexo usa como base a reportagem do jornal Olhar Direto, onde são dadas declarações pelas entidades e também expostas fotos das crianças que desfilaram.


Crianças desfilam para serem adotadas

A matéria apresenta as críticas tecidas pela deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) e Manuela D’avila (PCdoB), pela exposição indevida das crianças que desfilaram no evento. Além disso, apresenta dados sobre a adoção no Brasil, demonstrando que “92,7% dos que pretendem adotar querem uma criança ente zero e 5 anos”, o que demonstra a dificuldade de crianças mais velhas serem escolhidas para adoção.


Tweet de Manuela D'ávila

Tweet de Sâmia Bomfim

A entidade que promoveu o evento afirmou que este seria como uma oportunidade daqueles que estão aptos a adotar poderem conhecer as crianças. Contou também que em sua última edição, promoveu duas adoções, almejando ter a mesma visibilidade nesta.


Em nota, a Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais afirmou que o evento “representa uma grave violação aos direitos humanos, por tratar crianças como objeto de apreciação, podendo causar graves efeitos psicológicos devido à exposição”. É salientado também que, mesmo que a adoção de crianças mais velhas não seja tarefa fácil no Brasil, existem outras maneiras de promove-la, que não incluem a exposição destas.


O Nexo apresenta, então, 2 análises sobre o caso. A primeira do “professor Gustavo Ferraz de Campos Mônaco, que tem como um dos seus estudos a questão da adoção e guarda, e Tatiana Barile, coordenadora de programas do Instituto Fazendo História, ONG criadora de projetos para auxiliar no desenvolvimento de crianças e adolescentes que sofrem ou sofreram separação familiar”.


Ambos criticam a estrutura de divulgação e do desfile, por expor de maneira exacerbada as crianças em questão. Além disso, é evidenciado que tais crianças estão sob tutela do Estado, e que é dever deste prezar por suas imagens. São salientadas as ideias de que o evento se aproximaria de um “leilão” de crianças, por acontecer em um shopping, um lugar feito para circulação de mercadoria. Um problema de extrema importância na ideia do evento é a redução da escolha do adotante à fatores estéticos, e à quebra de expectativa da criança que não é adotada.


Ao serem questionados sobre outras formas de dar visibilidade à adoção, Gustavo e Tatiana apresentam ideias como um cadastro nacional de crianças aptas para adoção, em que não são expostas imagens, além de as entidades responsáveis pelos orfanatos apresentarem as crianças que não estão em primeiro lugar de escolha para os adotantes que procuram adotar um bebê, podendo despertar nestes um certo interesse.


O evento “Adoção Passarela”, mesmo que tenha como principal objetivo a promoção da adoção de jovens, é realizado de maneira muito degradante às crianças. Estas são expostas à uma pressão estética; mesmo que possa ser tido por elas como um “dia de beleza”, as que não forem adotadas podem desenvolver inúmeras complicações psicológicas em um futuro não tão distante.


O nexo, portanto, aborda o tema de maneira abrangente, apresentando dados da edição anterior, além de buscar informações sobre a adoção no Brasil. Mesmo que seu título seja direcionado às críticas feitas ao desfile, a apresentação das opiniões de Gustavo e Tatiana são de extrema relevância para que a matéria ganhe fundamento, já que é dito que o desfile infringe os direitos humanos, a ideia do que pode ser feito para incentivar a adoção, sem a exposição das crianças, também é apresentada a partir de dois viés.

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