Vingadores: Ultimato. Falsa representatividade feminina?

Por Yasmin Paião


“Vingadores: Ultimato”, o último filme do universo cinematográfico da Marvel, encerrou com maestria a saga de vários super-heróis. Arrecadou mais de dois bilhões de dólares ao redor do mundo e conquistou a 2ª maior bilheteria da história, perdendo apenas para “Avatar”.


O filme é a continuação de Vingadores: Guerra Infinita, onde o titã Thanos eliminou 50% de todas as criaturas do Universo com um estalar de dedos. A missão  dos vingadores é desfazer as ações do vilão e, por fim, restaurar a ordem do universo sem medir as consequências.


O enredo do filme apresenta cenas empoderadas com personagens gays, negros e femininas. Um diferencial construído ao longo de onze anos que contribuiu para o sucesso do longa.


Na batalha final de Ultimato, as heroínas do MCU ganham destaque .O momento “girl power” acontece quando o time de vingadoras se une para dar suporte à  Capitã Marvel que segura a  Manopla do Infinito. Uma cena de arrepiar que enfatiza a  importância de diversidade e sororidade.


Momento GIRL POWER

Apesar de alguns minutos de protagonismo feminino, Ultimato se contradiz com o destino de Viúva Negra.  A heroína e o Gavião Arqueiro, Clint, vão até Vormir para recuperar a Joia da Alma. Quando chegam ao local, Caveira Vermelha informa que é necessário um sacrifício de alma, ou seja, um dos super-heróis terá que morrer. Os dois estão dispostos a se sacrificar pelo bem maior, mas mesmo assim lutam por suas vidas. Entre ataques e contra-ataques, ficam dependurados numa pedra. Clint segura as mãos de Natasha que concorda em ser o sacrifício. A heroína se despede das telas com uma das mortes mais violentas e cheia de sangue.


Cena da morte da Viúva Negra

O desfecho da Viúva Negra entra em um contexto de filmes e histórias em quadrinhos de mulheres mortas, desintegradas e feridas para o desenvolvimento de personagens masculinos. O sacrifício de Natasha, apesar de colaborar com o final de todos os heróis, serve apenas como ferramenta para o desenvolvimento de Clint.


Por mais que existam elementos narrativos que justifiquem a cena, outros finais seriam possíveis. A posição do Arqueiro sobre a vida da heroína é problemática. A mulher mais relevante do MCU não tem agência sobre o próprio destino e fica de fora da batalha final.


Viúva Negra não teve a oportunidade de se desenvolver e ter uma resolução.  Todos heróis  tiveram o seu grande momento, mas a única vingadora original começou como líder e morreu. Nem sequer teve um velório como Tony Stark que lutou pela mesma causa. O filme tenta suavizar a cena da morte de Natasha por meio do humor. Quando o Clint conta aos vingadores o ocorrido, Thor faz uma piada que banaliza a história: " Ah mas nós temos as joias. Só estalar os dedos".


A Marvel já tinha apelado para esse clichê em Guerra Infinita quando Gamora é sacrificada por Thanos. Era de se esperar outro fim para Viúva Negra. Os diretores de Ultimato, em entrevista para revista EW, deixam claro que  Natasha não está jogando sua vida fora, mas sim tomando uma decisão que coloca o amigo e o universo acima dela. 


Tanto a indústria cinematográfica como o telejornalismo devem utilizar  a linguagem audiovisual a serviço da informação. Comunicadores têm o dever e a responsabilidade social de proporcionar às pessoas a compreensão da  sociedade onde elas vivem. Num mundo, onde 7 em cada 10 mulheres já foram vítimas de feminicídio, a cena “girl power” de Ultimato não seria uma contradição com o fim de Viúva Negra? Fica a reflexão para as novas produções audiovisuais.

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