Entre lutas e afetos: Lampião 2.0 vence Expocom 2019

Atualizado: 4 de Out de 2019

Membro do Núcleo de Jornalismo e Audiovisual (NJA), Armando Júnior bate um papo com os membros do Núcleo sobre a criação do projeto, mídia, desafios sociais e a premiação na Universidade Federal do Pará (UFPa).

Trabalho desenvolvido no Núcleo de Jornalismo e Audiovisual vence competição nacional. Foto: Lampião 2.0/Revista O Lacre.

Criado a partir da vivência e inquietação pessoal (e também compartilhada) em relação a presença de gays negros nos espaços acadêmicos, o Lampião surge quando Armando Júnior e seu amigo Leo Barbosa vivenciam, se questionam, refletem e denunciam parte de uma realidade de luta e resistência de uma comunidade que tem seus direitos caçados diariamente no Brasil. O projeto, que foi resultado do Trabalho de Conclusão do curso de Armando em dezembro de 2018, renasce em 2019 como Lampião 2.0, que de acordo com o autor, tem o “objetivo de lançar luz para um problema que continua sendo tratado no Brasil como vitimismo”. Vencedor na categoria Comunicação e Inovação da Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom) Nacional 2019, o Lampião 2.0, orientado pela Professora Iluska Coutinho, busca por meio de uma reportagem hipermídia, evidenciar as vivências de sujeitos em um país marcado por um racismo estrutural fruto de mais de três séculos de escravidão, que se soma ao triste título de país que mais mata LGBTI+ no mundo.


Assim como todo bom projeto inovador, capaz abrir novas perspectivas e lançar luz em caminhos e discussões difíceis, o projeto aborda nuances do preconceito e estigma social, considerando números de violência, oportunidades no mercado de trabalho e nos cargos de poder. Além disso, reflete sobre a representação na mídia e como isso se inter-relaciona e interfere no acesso, na permanência e na formação de gays negros no ensino superior.

De acordo com Armando, a reportagem foi desenvolvida no formato de uma conversa de WhatsApp para aproximar o público da discussão: “o tema tratado é tão complexo, exatamente por envolver diversas questões relacionadas às duas populações (gay e negra) que desenvolvemos a reportagem como se fosse uma grande conversa de WhatsApp. A ideia era aproximar o público usando de uma linguagem acessível característica de um aplicativo de mensagem amplamente utilizado no pais”, explica.




A premiação no Expocom Nacional 2019


A Expocom – Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação, além de uma exposição, é um prêmio destinado aos melhores trabalhos experimentais produzidos exclusivamente por estudantes no campo da Comunicação. As edições acontecem anualmente no Congresso de Ciências da Comunicação, tendo as etapas regionais e nacionais.

Para Armando, participar do Expocom foi uma experiência diferente de tudo o que já havia experimentado: “para quem gosta de desenvolver trabalhos práticos é uma ótima oportunidade de mostrar seu potencial e trocar ideias com outros estudantes de todo Brasil”, e dá as dicas para quem gostaria de participar:

“O processo para participar é mais simples do que parece. São duas etapas: o Expocom regional e o nacional (o primeiro é uma etapa classificatória para o segundo). A inscrição consiste basicamente na produção de um paper (que contém as informações principais do trabalho) e no envio do trabalho em si (produto). A etapa regional seleciona até 5 estudantes da região sudeste para a apresentação presencial que ocorre durante o congresso. Cada categoria tem um vencedor que representa a região na etapa nacional do prêmio.

Dica importante: Durante o processo de inscrição a produção do paper é um ponto chave para conseguir a indicação. É preciso destacar a metodologia utilizada para a produção do trabalho e os aspectos técnicos, mas também é fundamental mostrar a importância social e o objetivo envolvido na elaboração.

Mídia, luta e coletividade: bate-papo no NJA


Reunindo professores, estudantes e pesquisadores da Comunicação, o Núcleo de Jornalismo e Audiovisual atua como grupo de pesquisa científica e como espaço de investigação, estudo, experimentação e análise de materiais audiovisuais e outras narrativas jornalísticas. No Grupo, o Observatório Mídia e Direitos Humanos e o Ciclo de Estudos em Jornalismo e Audiovisual, propõem novos olhares para o jornalismo e sua potência enquanto motor de transformação social. Juntos para um bate-papo sobre o Lampião 2.0, os membros do grupo conversam com Armando sobre mídia, representação e as relações envolvidas nessa dinâmica. Confira:


Os limites entre os grupos vulneráveis e os padrões estabelecidos pelo capitalismo, patriarcado, e a dinâmica colonial estão em constante tensionamento. No entanto, há uma ideia geral (um tanto romantizada) que estaríamos vivendo um momento de criação de pontes, em que esse tensionamento resultará em mais igualdade entre os grupos sociais. Dentro da sua experiência na produção do Lampião 2.0, como você avalia esses tensionamentos e enxerga o presente/futuro dos grupos vulneráveis na sociedade brasileira?




O Lampião foi produzido no segundo semestre de 2018, ou seja, em meio àquele turbilhão todo que foi o processo eleitoral que resultou na eleição de Jair Bolsonaro. Portanto, eu acompanhei de perto todo o movimento conservador que aflorou no país, então posso dizer que minha perspectiva não é boa para quem faz parte de uma minoria social. Se você fizer parte de mais de uma minoria, então, é a pior possível. Infelizmente.

É importante dizer que a vida das minorias sociais no Brasil nunca foi fácil. Sempre convivemos com preconceitos e violências e isso não é recente. O que mudou foi que agora tudo isso é legitimado pela figura do presidente da república e do seu governo que em nada demonstram simpatia pelos movimentos sociais. Diferentemente de governos anteriores, quando existiam tentativas de promoção de igualdade, por meio da criação de políticas públicas mais inclusivas, o que se vê agora é exatamente o oposto. É a apropriação do Estado Brasileiro por um governo machista, racista e LGBTIfóbico que quer promover uma higienização moderna retirando direitos de quem mais sofre e demonizando o pouco que foi feito no passado.Eu não vejo pontes nessa atual conjuntura, não. Vejo duas ilhas: uma de quem defende o bem-estar social, os direitos humanos, a igualdade e a liberdade; e outra de quem é contra tudo isso. Entre esses dois mundos não tem como existir pontes, porque é exatamente esse vão que separa os que pensam dos bárbaros.


Em seu artigo que apresenta o relato de experiência no Intercom, você cita Sodré (1999) sob a perspectiva do “racismo midiático”, sobretudo na televisão, que confere um espaço de subalternidade para os personagens e temáticas negras. De lá pra cá, temos visto iniciativas (sobretudo da Globo), de inserir personagens e personalidades negras em sua programação, como Maju Coutinho, Iza, Lázaro Ramos (Mister Brau e Lazinho e você), protagonistas de Malhação, etc. Ou seja, de forma geral, a indústria do entretenimento já percebeu que incluir a diversidade em sua programação também gera lucro. Como você avalia essa movimentação da emissora? Esses novos personagens midiáticos conseguem colaborar para o enfrentamento das questões de representação negra na TV?


Olha, todo avanço deve ser comemorado, mas comemorado com consciência. Eu vibro quando vejo um negre ou LGBTI ocupando a bancada, empunhando o microfone, apresentando um programa, sendo protagonista da novela. Mas é preciso que não fiquemos preso apenas nisso. Ainda há muito espaço a ser conquistado. A população brasileira é composta por 54% de negres, por exemplo. No entanto, essa diversidade não aparece na TV, e nem está próximo disso acontecer. Vejo com ressalvas essa "mudança" exatamente por entender que tudo parte de uma lógica comercial e poucas vezes tem a ver com a conscientização da empresa de integrar a diversidade na sua programação. Existe uma balança que deve estar, no mínimo, equilibrada entre a necessidade comercial e a importância social dessa inclusão. É aí que se diferencia se um personagem é de fato representativo ou se ele é apenas um representante.Eu considero que esses novos personagens, como Maju e Iza, e até personagens não tão novos, como Lázaro Ramos e Taís Araújo, contribuem e muito para o debate. Me lembro de uma reportagem que mostrava uma menina que tinha orgulho dos cabelos crespos e grandes ao se ver representada pela cantora. Esse reconhecimento é importante! Isso contribui para o enfrentamento do preconceito e para uma ressignificação da posição e importância social de negres.


Pensando um pouco sobre a contribuição acadêmica para o movimento negro e LGBTI+, você acredita que estudos interseccioinais, que propõem um olhar mais complexo sobre os grupos sociais e consequentemente, sobre as problemáticas vividas por esses sujeitos, são um caminho acadêmico possível para um aprofundamento mais responsável no que diz respeito à essas lutas?







Sem dúvida! Uma das características que tornam o Lampião 2.0 diferente é essa questão da interseccionalidade. Ela foi extremamente importante para que pudéssemos compreender características que são particulares de cada grupo que juntos apresentam uma terceira característica. No início do trabalho a gente tinha uma dificuldade de lidar com isso porque tínhamos estudos sobre negres que eram pautados sobretudo pela heteronormatividade. E do outro lado, estudo sobre LGBTI+ extremamente marcados pela branquitude. Ou seja, buscamos ser um ponto de convergência para falar sobre as duas comunidades abordando sempre a importância de compreender esses indivíduos como seres que tem particularidades que nem sempre são inerentes à cor ou à sexualidade de maneira hegemônica. Fazer uma abordagem interseccional é reconhecer que a gente vive num sistema social complexo e que existe uma complexidade social e individual que se sobrepõem de diferentes maneiras, em ambientes diferentes, com sujeitos diferentes. Ou seja, a opressão sofrida por um não vai ser a mesma sofrida por outro uma vez que múltiplas formas de discriminação atuam de acordo raça, gênero, classe, orientação sexual, religião... E isso precisa ser compreendido e respeitado também por quem está escrevendo sobre isso.

Pensando na sua trajetória acadêmica, da participação em grupos como o NJA. Você acredita que os ambientes compartilhados, a pesquisa feita em coletividade, são também ferramentas para que a gente encontre alguns avanços nos enfrentamentos sociais?





Com certeza. É através da pesquisa que a gente pode conhecer outras realidades. Num tempo onde se questiona tanto a ciência em detrimento de um ceticismo incoerente, é urgente que a gente defenda a pesquisa, sobretudo a pesquisa feita por instituições de ensino públicas. Esse é um dos espaços para compreender melhor o mundo que a gente vive e de buscar soluções baseadas no conhecimento, e não no achismo que tem ganhado tanto espaço ultimamente.




E aí, ficou curioso(a) pra acessar o lampião 2.0? Corre lá no nosso site: jornalismoaudiovisual.com/lampiao2ponto0

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