Pre.(to).da.dor religioso

Atualizado: Jul 16


“Quando, porém, Maria chegou onde Jesus estava e o viu, lançou-se aos seus pés e disse-lhe: ‘Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido!’. Ao vê-la chorar assim, como também todos os judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E, sob o impulso da profunda emoção, perguntou: ‘onde o puseste?’. Responderam-lhe: ‘Senhor, vinde ver.’ Jesus pôs-se a chorar. Observaram por isso os judeus: ‘vede como ele o amava!’.” (Jo 11, 32-36)


Multidisciplinar e martinicano, Aimé Césaire costumava dizer que, quando um sujeito desumaniza outro, também se desumaniza no processo. Um bom exemplo desse pensamento do poeta surrealista é o conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis.


Preto e brasileiro, Machado conta a história do personagem Cândido Neves, um sujeito branco que ganhava a vida capturando pessoas escravizadas em fuga no Brasil colonial. Candinho, desesperado para pagar suas contas e manter a guarda do filho recém nascido, captura uma mulher negra grávida de forma violenta e dolorosa, entregando-a para cativeiro em troca da recompensa.


Os ferimentos e humilhações impostos à mãe preta.da.dor resultam no aborto indesejado da criança negra. Cândido entende aquela sua atitude como legítima, pois considera que o bem-estar do pequeno Neves valia a vida do pretinho.


Através do diálogo entre Césaire e Machado, é possível compreender que relatividade e assimetria de princípios são ferramentas de dor e violência - tanto contra o corpo desumanizado, quanto contra a mente desumanizadora. Uma dor não se equivale a outra - ou ao menos não deveria - contudo, ambas são prejudiciais para a noção de humanidade.


Desta forma, o uso de expressões como: “caçada continua” e “fim da caçada”, amplamente utilizadas por veículos de comunicação para cobrir o caso de Lázaro Barbosa, é motivo de reflexão. Nesta lógica apresentada, e considerando-se que as mídias são feitas por seres humanos, verbetes associados a figuras de pre.da.do.res descaracterizam não só a humanidade de Lázaro, mas também a de quem narra a dramaturgia daquele crime.


Destacar essa características não pressupõe inocência do sujeito Lázaro, nem tampouco deixa de considerar hediondo seus atos criminosos. O destaque, na verdade, chama atenção para o valor humano deixado de lado no tratamento do caso.


Afetação


AGORA É LEI

Dá cadeia para quem me chamar de negro analfabeto

Só não dá cadeia para quem impõe o analfabetismo,

obstruindo meu acesso às escolas

Dá cadeia para quem me chamar de negro burro

Só não dá cadeia para quem me chamar de "moreno",

Mesmo sabendo que com isso querem me transformar em um

híbrido

E assim como aos burros, negar as condições de reprodução

da minha raça

(Nego Bispo)


A frase “o homem é o lobo do homem” é curiosa. Feliz os gêneros que não se vêem contemplados nessa afirmativa; feliz afirmativa de Fanon, ao dizer que o homem negro não é um homem; e pobre do lobo, que pouco tem a ver com a história, mas foi utilizado como mediador e metáfora para pre.da.dor.

Diferente dos lúpus, nós - os sapiens ocidentalizadus - atribuímos aos nossos semelhantes características de que não gostamos para podermos discriminar, xingar, torturar, violar ou matar nossa própria espécie.


Desde a colonização, maldizer religiões de matrizes africanas parece ser parte da prática de desumanização. No senso comum, é rotineira a associação de elementos dessa fé com demonologias cristãs. Como destaca Fabiana Moraes, em sua coluna para o Intercept, não cabe mais (se é que um dia coube) associar essas religiões de acordo com formato colonial pre.da.tó.rio.


O jornalismo é parte da sociedade e não algo fora dela. O caráter didático desta função poderia ser melhor explorado dentro do caso. Era um momento oportuno para as mídias colaborarem com a compreensão e o respeito aos signos e símbolos das religiões de matrizes africanas, desfazendo esses erros associativos entre ambas as crenças. Todavia, a ausência dessa discussão e a vinculação (direta ou indireta) ao satanismo, por parte da mídia, culminou em atos de violência em terreiros da região de Goiás durante os 20 dias de busca policial.


No dia 30 de junho - dois dias após o desfecho do caso Lázaro - o Globo Esporte publicou uma matéria sobre o jovem jogador Paulinho, convocado para a seleção olímpica de futebol. O trabalho feito por Bruno Cassucci e Raphael Zarko deve ser referência no tratamento humanizado para religiões de matriz africana. A dupla consegue entrevistar o Atleta - filho de Oxóssi - e difundir um pouco do que as religiões dessa matriz realmente se propõem a ser. A entrevista não cita, por exemplo, livros de bruxaria ou inclinações para uma maldade espiritual, que não dizem respeito às práticas de Umbanda, nem de Candomblé.


Considerando essas reflexões, é possível entender que “o (tele)jornalismo tem cumprido o papel de denunciar e, também, anunciar uma sociedade diversa – de múltiplas faces, vozes e cidadanias”. Nesse sentido, destaca-se a importância do livro Vídeo Sapiens: Jornalismo, Audiovisual e Direitos Humanos para a construção de questionamentos que auxiliem na produção de matérias como a do Globo Esporte, tanto em situações como a de Lázaro, como em casos como o do atleta de futebol.