Barbosa em memória : o caso Sidão

Por Gustavo Luiz


Não me assusto com o que houve com Sidão. A máxima do futebol: "não é apenas um jogo" se faz verdadeira também nesse caso. O cenário estava armado há algum tempo. A forma tradicional de fazer a cobertura do esporte por vezes limita a compreensão do que está por fora do processo. Para desvincular um pouco dessa ideia é fundamental trazer a memória casos semelhantes.


Copa do mundo de 1950. Maracanã recém inaugurado, 200 mil torcedores, má alimentação, promessas de terras e automóveis. Assim Barbosa e os outros jogadores entraram para a histórica final contra a primeira campeã mundial: a seleção uruguaia. O estilo único do brasileiro de pensar futebol sagrou a canarinha como pentacampeã mundial, porém, desde aquela época o jornalismo esportivo fazia pouco caso das seleções adversárias na mesma medida em que desvalorizavam qualquer resultado que não fosse o título. Não por acaso o segundo lugar desse ano recebe alcunhas como: "fantasma de 50" e "maracanaço".


Seleção Brasileira Copa 1950

Pior para Barbosa. Em vida o mesmo dizia: "no Brasil a pena máxima é de 30 anos. Mas pago por 40 anos por um crime que não cometi". O goleiro, multicampeão pela equipe do Vasco, sofreu duras críticas após o segundo gol uruguaio anotado por Ghiggia e consequentemente foi eleito como o grande culpado da derrota brasileira para a população através da rádio e do impresso. A dificuldade do lance é interpretativa, mas ao longo dos anos tivemos pelo menos dois lances parecidos no qual o defensor não foi culpabilizado e o atacante exaltado: o gol de Sócrates contra a Itália na copa de 82 e o "gol espírita" de Oseas na final da Copa do Brasil de 98.


Então o que levou as mediações entre esporte e público da época a elegerem Barboza como vilão em um lance de relativa dificuldade? Para responder essa questão penso em ir para além das quatro linhas. O futebol brasileiro começa a se profissionalizar em meados da década de trinta, depois de apenas 42 anos da lei áurea. O ambiente ainda era contrário a presença de negros nas equipes para jogar futebol nos grandes torneios da época. O Vasco foi o primeiro clube tradicional a aceitar atletas com o fenótipo afro, como consequência sofria represálias, tal como os jogadores pretos. Toda essa segregação à brasileira contribuiu para direcionar a frustração da derrota do primeiro mundial dentro de casa, para a presença dos atletas negros titulares daquele jogo. Para além das críticas, o fato contribuiu para naturalizar e legitimar a máxima: "goleiro negro não é bom".


69 anos do episódio. Desde sua saída do São Paulo FC em 2018 as mesas redondas de canais abertos e fechados da televisão brasileira evidenciam erros técnicos do goleiro Sidão, agora atuando pelo o mesmo Vasco de Barbosa. 12 de maio de 2019, domingo das mães, Santos e Vasco transmitidos pela rede Globo. O diferencial de "jogar com os pés" acabou complicando sua equipe limitada no primeiro gol santista. O time da vila belmiro ainda marcou outros dois gols, encerrando o placar da partida em 3 a 0. A interatividade da transmissão permitia a escolha do melhor jogador em campo através do voto dos internautas, o escolhido receberia o troféu “Craque do Jogo”.


De forma irônica o público elegeu Sidão como melhor da partida com cerca de 90% dos votos. A repórter Júlia Guimarães, a contragosto, entrega o prêmio ao jogador. Constrangido o atleta se retira de campo recusando o troféu mas compreendendo a situação da profissional. A falha técnica de Sidão é mais nítida em relação ao caso Barbosa, porém essa eleição indica como o racismo recreativo está presente no consumo atual do esporte independente do sucesso ou fracasso da personagem negra. A rede Globo se retratou com o atleta diversas vezes depois do término da partida em programas como o Globo Esporte, o goleiro também recebeu apoio de companheiros de profissão, além da própria assessoria de comunicação da equipe adversária.


Tereza Borba, filha do ex-goleiro Barbosa, em entrevista a ESPN disse após o 7 a 1: "Não quero que falem que por causa de o Neymar não ter jogado, perdemos por isso. Gente, então uma Copa é só o Neymar? Uma Copa é só o Barbosa? Não é isso. Tem mais 22 no elenco. Uma andorinha só não faz verão, como um Neymar sozinho não faz. Um Barbosa também não. Ninguém tem que ser servir de desculpa" (Matéria publicada no site ESPN no dia 09/07/2014). Diego Garcia foi capaz de extrair de sua fonte o desejo de libertar o pai daquele legado sem precisar eleger um novo vilão.


Características que transformaram a carreira do goleiro de 50 estão se repetindo sistematicamente aos atletas negros. O Observatório da discriminação racial no futebol relembra a copa de 58 e as narrativas construídas em veículos como O Cruzeiro traziam narrativas exóticas em relação ao atleta negro e sobre uma pseudo fragilidade emocional ligada a raça.


Atualmente essas narrativas se legitimam através de apurações rasas como nas ditas “polêmicas” envolvendo o jogador Neymar. O Juízo de valor é estabelecido antes de algum fato ocorrer e a partir de pequenos recortes veículos, em especial algumas mesas redondas, tendem a repercutir visões que estimulam práticas racistas. Leva-se em conta a rotina produtiva do jornalismo, mas seria interessantes ter nas redações jornalistas que carregam essa preocupação na pele. Pois quando as figuras negras relevantes no futebol são agredidas fica difícil imaginar ocasiões distintas para jogadores que atuam em ligas menos expressivas, como ocorreu com Sidão. A Rede Globo revisou o formato da premiação, que passará por uma curadoria antes, entretanto me pergunto se o conteúdo sobre atletas negros terá uma perspectiva de mudança também.

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